Jogo do Bicho: 134 anos de história e uma proibição que nunca conseguiu acabar com ele

Nasceu em 1892 para salvar um zoológico, foi proibido apenas três anos depois e atravessou ditaduras, crises e operações policiais. A história do Jogo do Bicho começa com um barão que só queria pagar a comida dos animais, mas chegou aos nossos dias com uma pergunta incômoda: como uma loteria clandestina conseguiu resistir por mais de 130 anos?

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Publicado por: Prismafeed

O Brasil já trocou de moeda várias vezes, mudou de Constituição, enfrentou ditaduras, elegeu presidentes, derrubou presidentes e chegou à era da inteligência artificial. Nesse meio-tempo, o Jogo do Bicho continuou por aí, desafiando gerações de autoridades.

Em 2026, a invenção completa 134 anos de existência. Está proibida desde 1895, com diferentes enquadramentos legais ao longo do tempo. E segue presente na realidade brasileira.

Mas há uma correção histórica importante: o jogo do bicho não chegou a testemunhar a queda do Império. Nasceu três anos depois, em 1892. Quem atravessou a Proclamação da República, em 1889, foi o zoológico que lhe deu origem.

A distinção não diminui a história. Pelo contrário: o jogo nasceu praticamente junto com a República e continua existindo depois de mais de um século de tentativas de repressão.

É uma longevidade extraordinária para uma atividade que o Estado decidiu colocar fora da lei.

O Jogo do Bicho nasceu no zoológico de um barão

A história começa no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Vila Isabel.

Em 1888, quando Dom Pedro II ainda era imperador, o empresário João Batista Viana Drummond abriu um jardim zoológico. Naquele mesmo ano, recebeu o título de Barão de Drummond.

O empreendimento tinha prestígio. Segundo uma pesquisa histórica publicada pela Brasiliana Fotográfica, da Biblioteca Nacional, havia animais exóticos, apresentações musicais e até uma lhama doada pela princesa Isabel.

O problema era bastante menos aristocrático: dinheiro.

Manter animais custava caro. O zoológico contava com ajuda financeira do governo imperial, mas a mudança de regime e as dificuldades econômicas comprometeram suas finanças.

O barão precisava atrair visitantes e aumentar a receita.

Em 1890, apresentou às autoridades municipais uma proposta para oferecer jogos públicos supervisionados pela polícia. Argumentava que esses divertimentos ajudariam a financiar o zoológico.

A solução apareceu em 1892: uma loteria baseada nos próprios animais.

O que começou como uma tentativa de equilibrar as contas de um parque acabaria se transformando numa das práticas clandestinas mais persistentes da história brasileira.

O primeiro resultado do jogo do bicho foi um avestruz

O primeiro sorteio aconteceu em 3 de julho de 1892, um domingo.

A mecânica original era simples. Ao comprar o ingresso do zoológico, o visitante recebia um bilhete ilustrado com um animal.

Uma caixa instalada no alto de um poste escondia a figura escolhida para aquele dia. Às cinco horas da tarde, o animal era revelado.

Quem tivesse a figura correspondente recebia um prêmio.

Havia 25 animais na lista original. O prêmio equivalia a vinte vezes o preço da entrada.

E o primeiro vencedor da história animal foi o avestruz.

O episódio está documentado em pesquisa do historiador Felipe Magalhães, reproduzida pela Biblioteca Nacional: 23 visitantes foram premiados naquela estreia.

É difícil imaginar que aquelas pessoas soubessem o que estavam presenciando. Foram ao zoológico, viram bichos, participaram de uma novidade e ganharam dinheiro.

Estavam diante do nascimento de uma atividade que sobreviveria ao próprio estabelecimento.

Como o jogo do bicho saiu do zoológico e conquistou as ruas?

O sucesso foi tamanho que os bilhetes começaram a ser comercializados fora do parque.

A loteria deixou de depender da visita aos animais. Comerciantes e intermediários passaram a oferecer o jogo em diferentes pontos da cidade.

A relação com números também se desenvolveu. Os 25 animais foram associados a grupos de quatro dezenas, compondo um sistema de cem números que se tornou uma característica conhecida do jogo.

O bicho já não precisava de jaulas, tratadores ou bilheteria.

Precisava apenas de gente disposta a participar e de uma rede capaz de organizar a atividade.

Segundo a historiadora Amy Chazkel, em estudo publicado no Journal of Latin American Studies, a expansão do jogo do bicho nas primeiras décadas da República esteve profundamente ligada ao comércio popular e às relações informais entre população e autoridades.

Isso ajuda a explicar um fenômeno que a simples palavra "ilegalidade" não resolve: a prática se espalhou justamente enquanto o poder público tentava estabelecer limites para ela.

O jogo deixou de ser uma promoção comercial e passou a funcionar como uma loteria clandestina independente de seu criador.

Em 1895, a lei proibiu. O Jogo do Bicho não desapareceu.

A primeira grande ruptura aconteceu em 1895.

A prefeitura do então Distrito Federal encerrou a autorização que sustentava a exploração do jogo no zoológico.

A atividade passou à clandestinidade, mas já havia ultrapassado os portões do estabelecimento. As redes de distribuição continuaram a funcionar.

O Estado conseguiu retirar a autorização formal. Não conseguiu fazer desaparecer o interesse popular.

Esse contraste acompanharia o jogo do bicho durante todo o século XX.

Em 1941, o Decreto-Lei nº 3.688, conhecido como Lei das Contravenções Penais, passou a tratar expressamente da exploração do Jogo do Bicho em seu artigo 58. A atividade também foi objeto de legislação posterior sobre loterias.

Há uma distinção jurídica importante: o Jogo do Bicho é tratado como contravenção penal, categoria diferente dos crimes previstos no Código Penal. Isso não significa que as organizações envolvidas não possam cometer crimes graves.

Corrupção, lavagem de dinheiro, violência e organização criminosa são questões distintas, que podem existir associadas à exploração clandestina.

E, como a história demonstraria, algumas delas se tornariam parte importante do problema.

Como uma atividade ilegal conseguiu sobreviver tanto tempo?

A pergunta mais interessante talvez não seja por que o Jogo do Bicho foi proibido.

É como conseguiu persistir.

Não há uma explicação única, mas a pesquisa histórica oferece algumas pistas.

A primeira é sua enorme aceitação social. O jogo se popularizou em diferentes camadas da população, inclusive entre pessoas que não enxergavam a prática com a mesma gravidade atribuída pela legislação.

A segunda é sua capacidade de organização. A atividade passou a funcionar por meio de redes de vendedores, intermediários e financiadores, sem depender de um único estabelecimento.

A terceira é bastante menos folclórica: a convivência entre operadores clandestinos e agentes do próprio Estado.

O sociólogo Michel Misse, em pesquisa publicada na revista Sociologia e Política, examinou como o jogo do bicho se desenvolveu no Rio de Janeiro, incluindo disputas territoriais, acordos entre banqueiros e relações de corrupção envolvendo agentes públicos.

Não se tratava simplesmente de uma população desobedecendo à lei.

Em diferentes momentos, a exploração do jogo contou com estruturas de poder que misturavam interesses econômicos, influência política e violência.

Uma coisa é alguém reconhecer a figura de um animal num pedaço de papel. Outra, muito diferente, é existir uma organização clandestina capaz de movimentar dinheiro e disputar território durante décadas.

Confundir essas duas realidades talvez tenha sido uma das formas mais convenientes de manter o assunto envolto numa simpática névoa de folclore.

O Jogo do Bicho chegou ao Carnaval e ao futebol

Com o passar do tempo, as redes ligadas ao Jogo do Bicho também passaram a ocupar espaços importantes na vida cultural brasileira.

O caso mais conhecido é o Carnaval carioca.

Pesquisas acadêmicas documentam o financiamento de escolas de samba por banqueiros do jogo, assim como sua participação na administração de agremiações e sua influência em atividades esportivas e políticas.

Um estudo publicado na revista Caderno CRH, disponível na biblioteca científica SciELO, examina como recursos e estruturas administrativas ligados ao jogo do bicho contribuíram para a transformação de algumas escolas de samba em organizações cada vez mais profissionalizadas.

O fenômeno, porém, tem duas faces.

O financiamento de manifestações culturais ajudou determinados banqueiros a conquistar prestígio social. Ao mesmo tempo, esse prestígio podia conviver com práticas de corrupção, coerção e disputa violenta por poder.

Não é necessário desprezar o Carnaval para reconhecer essa contradição. Muito menos transformar cada sambista ou escola de samba em cúmplice dos crimes eventualmente praticados por seus financiadores.

O ponto é outro: o Jogo do Bicho deixou de ser apenas uma loteria. Parte de seus operadores construiu relações econômicas e políticas muito além das apostas.

Até a Biblioteca Nacional guarda uma surpresa envolvendo o bicho

Uma das curiosidades mais inesperadas dessa história está nos arquivos da Biblioteca Nacional.

Em 1898, quando o Brasil organizava registros de direitos autorais, o primeiro item do primeiro Livro Registro do Escritório de Direitos Autorais foi uma cromolitografia ligada aos animais do Jogo do Bicho.

Sim: enquanto as autoridades já combatiam aquela loteria, suas imagens eram objeto de proteção autoral.

Não era o jogo clandestino recebendo autorização para funcionar. Eram os direitos sobre uma obra gráfica sendo registrados.

Mas a coincidência continua deliciosa.

O jogo estava proibido, suas figuras circulavam amplamente e alguém considerou importante assegurar direitos sobre aquela produção visual.

A informação aparece num dossiê da Biblioteca Nacional Digital, que também apresenta exemplares históricos dessas ilustrações.

Décadas antes de existir qualquer discussão sobre propriedade intelectual na internet, os bichos já tinham entrado na burocracia dos direitos autorais brasileiros.

O zoológico acabou em 1939. O jogo continuou.

O destino do estabelecimento que deu origem a tudo isso acrescenta outra ironia ao episódio.

O Jardim Zoológico de Vila Isabel encerrou suas atividades em dezembro de 1939, segundo registros históricos reunidos pela Brasiliana Fotográfica.

A instituição que justificou a criação da loteria deixou de existir.

O jogo, porém, permaneceu.

O barão já havia morrido em 1897. O empreendimento original desapareceu. O Brasil entrou no Estado Novo, depois atravessou a redemocratização, a ditadura militar e uma nova democracia.

E o Jogo do Bicho continuou sendo praticado.

Há até uma lembrança literária dessa história: em 1975, Carlos Drummond de Andrade, primo distante do barão, publicou no Jornal do Brasil uma crônica sobre o antepassado. Nela, discutiu a popularidade do jogo e questionou o moralismo que cercava sua proibição.

A crônica não apaga os problemas posteriores da atividade, mas demonstra como o assunto já havia ultrapassado o terreno policial para entrar na literatura, nos costumes e nas discussões sobre a sociedade brasileira.

Afinal, o Jogo do Bicho ainda é ilegal no Brasil?

Sim. Em outubro de 2026, a exploração do jogo do bicho continua sem autorização geral no Brasil e permanece submetida à legislação contravencional.

Existem propostas para alterar esse cenário.

O Projeto de Lei 2.234/2022, que contempla a regulamentação de diferentes modalidades de jogos, incluindo o Jogo do Bicho, recebeu parecer favorável na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado em 2024, mas continua em tramitação.

Uma eventual mudança legislativa exigiria aprovação e entrada em vigor das novas regras. A simples existência do projeto não legaliza a atividade.

E existe outra distinção essencial para compreender a história: não se está falando da mesma empresa funcionando ininterruptamente desde 1892.

Operadores mudaram, redes foram reorganizadas, estabelecimentos fecharam e disputas alteraram o controle da atividade.

O fenômeno que permaneceu foi a própria loteria clandestina, cuja sobrevivência está amplamente documentada.

A longevidade é real. A ideia de uma única organização imutável atravessando 134 anos seria uma fantasia.

O que a história do Jogo do Bicho revela sobre o Brasil?

O Jogo do Bicho é uma invenção genuinamente brasileira. Surgiu de um problema financeiro num zoológico carioca e se transformou numa prática nacional.

Sua história tem aristocracia, República, animais exóticos, imprensa, comerciantes populares, polícia, direitos autorais, literatura, Carnaval e organizações criminosas.

É material suficiente para muitos livros. Aliás, já rendeu vários.

Mas o aspecto mais curioso não é simplesmente sua idade.

É o contraste entre uma proibição antiga e a persistência da atividade que ela pretendia impedir.

Isso não prova que a proibição tenha sido inútil, nem que a legalização seja necessariamente a solução. Essas são questões que exigem análise dos efeitos da repressão, da regulamentação e dos riscos envolvidos.

O que a trajetória demonstra é que escrever uma proibição na lei não equivale, automaticamente, a eliminar as condições econômicas, culturais e políticas que sustentam uma prática.

O barão queria atrair gente para dentro do zoológico. Acabou ajudando a colocar nas ruas uma questão que o Brasil discute até hoje.

O zoológico fechou. O fundador morreu. A República segue atravessando crises e ditaduras. A legislação mudou.

Mas o Jogo do Bicho permaneceu.

Talvez seja essa a grande ironia de sua história: uma loteria que nasceu para financiar a sobrevivência de animais conseguiu sobreviver por muito mais tempo que o próprio jardim zoológico.