Livro de São Cipriano: o santo queimou seus livros, mas os editores fizeram uma fortuna com eles

Um feiticeiro que virou santo, um livro que ninguém consegue provar que ele escreveu e uma multidão de editores jurando vender a única versão verdadeira. A história do Livro de São Cipriano é uma aula de magia, folclore e, principalmente, da arte de transformar a credulidade alheia em dinheiro.

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Publicado por: Prismafeed

Existe uma coisa mais impressionante do que um homem que, segundo a lenda, fez um pacto com o Diabo, dominou demônios e acabou se tornando santo: a quantidade de gente que conseguiu ganhar dinheiro publicando livros em nome dele.

O Livro de São Cipriano é um dos fenômenos mais curiosos da história editorial de Portugal e do Brasil. Durante gerações, foi vendido como um poderoso manual de magia, capaz de ensinar desde feitiços amorosos até a localização de tesouros escondidos.

E não pense que estamos falando de uma obscura publicação para meia dúzia de feiticeiros aposentados.

Uma pesquisa acadêmica publicada em 2025 identificou 39 edições diferentes, lançadas por mais de 20 editoras, somente no levantamento de um século de circulação brasileira. Em setembro de 1916, segundo estatísticas reproduzidas pela imprensa da época, foram vendidos 1.223 exemplares em um único mês.

É uma marca respeitável para um livro cujo suposto autor nem sequer pode ser confirmado historicamente.

Mas o episódio mais extraordinário envolve os próprios editores: em 1923, uma livraria brasileira publicou anúncios garantindo que sua edição era a verdadeira e que todas as concorrentes eram falsas.

Em outras palavras, tivemos uma autêntica guerra comercial entre vendedores de conhecimentos sobrenaturais.

O Diabo, que supostamente estava metido no negócio desde o princípio, deve ter ficado constrangido com tanta concorrência.

Afinal, quem escreveu o Livro de São Cipriano?

A resposta é menos misteriosa do que gostariam os vendedores de grimórios: não existe evidência histórica de que São Cipriano tenha escrito o famoso livro de magia que leva seu nome.

Aliás, a própria existência do Cipriano feiticeiro é historicamente incerta.

É importante distinguir duas figuras que a tradição popular frequentemente mistura.

São Cipriano de Cartago foi um bispo cristão real, que viveu no século III e deixou escritos religiosos conhecidos.

Já Cipriano de Antioquia, o suposto grande feiticeiro que posteriormente se converteu ao cristianismo, é personagem de uma tradição hagiográfica. Isto é, de narrativas religiosas sobre a vida dos santos.

A Enciclopédia Católica já registrava, em 1908, as dificuldades históricas dessa segunda figura, incluindo a ausência de um bispo de Antioquia com esse nome.

Mas a lenda é deliciosa.

Segundo a narrativa, Cipriano era um feiticeiro extraordinariamente poderoso. Certo dia, foi procurado por um homem chamado Aglaides, apaixonado por uma jovem cristã chamada Justina.

O sujeito desejava conquistar a moça, que não correspondia aos seus sentimentos. Como a recusa feminina aparentemente não entrava em suas possibilidades intelectuais, resolveu terceirizar o problema para o sobrenatural.

Contratou Cipriano para usar magia e demônios contra a vontade de Justina.

O resultado foi um fracasso espetacular.

Segundo a lenda, os demônios não conseguiram vencer a fé da jovem. Cipriano, impressionado com a superioridade do Deus cristão, abandonou a feitiçaria e se converteu.

E aqui encontramos uma das maiores ironias de toda a história.

Na própria narrativa tradicional, Cipriano queimou seus livros de magia depois da conversão.

Séculos depois, naturalmente, apareceram editores vendendo os supostos segredos contidos nesses mesmos livros.

É uma façanha editorial formidável: recuperar, organizar, ampliar e comercializar uma obra que, na história do próprio autor, havia sido destruída.

Nem os demônios da lenda demonstraram tamanha capacidade de recuperação documental.

Portugal: onde o santo virou uma biblioteca de feitiços

Embora a tradição ligada a Cipriano seja muito antiga, o livro popular que conhecemos hoje foi moldado sobretudo pelas publicações portuguesas do século XIX.

Uma de suas versões mais influentes foi O Grande Livro de S. Cypriano ou Thesouro do Feiticeiro, publicado em Lisboa pela Livraria Econômica, em edição situada aproximadamente nos anos 1890.

O conteúdo era uma verdadeira feira de variedades sobrenaturais.

Havia orações cristãs, instruções de exorcismo, leitura de cartas, adivinhação, magia amorosa, pactos demoníacos e explicações para encontrar tesouros encantados.

A obra prometia esclarecer questões que iam do destino das almas à localização de riquezas enterradas.

O leitor começava preocupado com o pecado e, algumas páginas depois, já estava interessado em saber onde alguém havia escondido uma fortuna.

Era praticamente um serviço completo de consultoria espiritual, matrimonial e patrimonial.

O aspecto mais divertido é que essas publicações misturavam elementos religiosos que, à primeira vista, parecem incompatíveis.

Podia-se encontrar uma oração invocando a proteção divina nas proximidades de textos sobre magia demoníaca.

A pesquisadora Inês Teixeira Barreto, da PUC-SP, explica que a tradição editorial portuguesa conservava um forte fundo cristão, mesmo ao reunir práticas de magia e invocações de espíritos.

Não se tratava simplesmente de uma obra anticristã disfarçada. A história da conversão do santo funcionava também como ensinamento religioso.

O livro parecia oferecer um programa bastante peculiar: o leitor podia examinar os segredos da feitiçaria, mas era lembrado de que deveria salvar a própria alma.

Uma espécie de pacote turístico pelo inferno, com retorno obrigatório à igreja.

As maiores bizarrices do Livro de São Cipriano

O índice de uma antiga edição portuguesa, preservada pela Biblioteca Nacional de Portugal, revela a impressionante diversidade de assuntos que os editores consideravam indispensáveis à formação de um feiticeiro competente.

Entre eles, encontram-se:

  • Fantasmas nas encruzilhadas: explicações e orações envolvendo espíritos que supostamente apareciam nesses lugares.
  • Tesouros encantados: instruções para libertar riquezas escondidas de encantamentos sobrenaturais.
  • Pactos com demônios: inclusive um capítulo sobre a obtenção de um pequeno servidor diabólico, o Famaliá ou Cramulhão.
  • Feitiçaria com gatos pretos, sapos e morcegos: animais incorporados a diversos rituais da tradição mágica.
  • Adivinhação por meio de uma peneira: porque aparentemente até os utensílios domésticos tinham uma segunda carreira no ocultismo.
  • Arte de fazer ouro puro: um capítulo dedicado à alquimia, que certamente teria interessado bastante aos ministros da Fazenda.
  • Leitura da personalidade pelo crânio: uma prática historicamente associada a teorias desacreditadas sobre a relação entre características físicas e comportamento.

E há muito mais.

Uma das seções anuncia até um feitiço envolvendo um bolo doce destinado a fazer mal a alguém.

Imagine a surpresa de descobrir que, naquela tradição, nem a confeitaria estava livre das intenções perversas.

É necessário esclarecer que essas são descrições de conteúdos presentes nas edições históricas, não evidências de que os procedimentos funcionassem. Algumas receitas envolviam crueldade contra animais, substâncias perigosas ou tentativas de prejudicar terceiros.

Mas o conjunto é um documento fascinante da cultura popular. Mostra medos, desejos e soluções imaginadas por sociedades que frequentemente procuravam explicações sobrenaturais para problemas concretos.

Doenças, pobreza, ciúmes, azar, conflitos amorosos: praticamente nenhuma desgraça humana ficava sem seu respectivo capítulo.

Para o editor, era uma situação comercial invejável. Se o cliente não tivesse problemas, bastava apresentar-lhe alguns novos.

O Livro de São Cipriano e a irresistível promessa dos tesouros escondidos

Um dos conteúdos mais curiosos da tradição ibérica envolve os tesouros da Galiza, região no noroeste da Espanha.

A crença popular sustentava que antigas riquezas estavam escondidas em determinados locais, frequentemente protegidas por encantamentos.

Não bastava encontrar o tesouro. Era necessário saber desfazer a magia que supostamente impedia sua retirada.

O pesquisador Félix Francisco Castro Vicente, que examinou dezenas de edições espanholas, portuguesas e brasileiras, descreve uma versão portuguesa com uma relação de 174 tesouros atribuídos ao reino da Galiza.

É uma quantidade admirável de oportunidades de enriquecimento.

Infelizmente, não se conhece um levantamento igualmente impressionante de pessoas que tenham efetivamente enriquecido seguindo essas indicações.

A febre dos tesouros também criou oportunidades para comerciantes de livros supostamente autênticos.

Castro Vicente relata que o historiador galego Bernardo Barreiro publicou, em 1885, material sobre o chamado Ciprianillo, justamente para combater a exploração de camponeses que pagavam valores elevados por cópias apresentadas como verdadeiras.

Segundo esse relato histórico, algumas pessoas chegavam a desfazer-se de bens importantes para adquirir os supostos segredos.

O mecanismo é conhecido: alguém promete revelar uma fortuna escondida, mas cobra antecipadamente pelo caminho até ela.

Se o tesouro não aparecer, o vendedor pelo menos já encontrou o seu.

O santo desembarca no Brasil. E encontra editores ainda mais ambiciosos

Os primeiros anúncios conhecidos do Livro de São Cipriano na imprensa brasileira aparecem em 1876, no Rio de Janeiro.

Inicialmente, a obra circulava em versões associadas ao mercado português. Depois, livrarias e editoras brasileiras passaram a publicar suas próprias edições.

Uma das grandes responsáveis pela popularização foi a Livraria Quaresma, fundada por Pedro Quaresma, empresário especializado em publicações populares.

A pesquisadora Inês Teixeira Barreto encontrou mais de cem anúncios do Livro de São Cipriano publicados pela Quaresma em jornais cariocas entre 1880 e 1930.

Cem anúncios!

O investimento publicitário demonstra que os editores não dependiam exclusivamente de forças ocultas para conseguir compradores.

Também utilizavam algo muito mais confiável: propaganda.

As peças destacavam a antiguidade da obra, seus supostos poderes e a capacidade de resolver problemas cotidianos.

Esse último argumento é especialmente importante.

O livro não era vendido apenas como curiosidade intelectual. Ele oferecia esperança a pessoas preocupadas com dinheiro, saúde, amor e acontecimentos que pareciam fora de seu controle.

A promessa de resolver sofrimentos reais tornava o produto muito mais atraente.

É nesse ponto que a curiosidade histórica encontra uma questão ética: vender literatura mística é uma atividade legítima; apresentar poderes sobrenaturais como resultados garantidos é outra conversa.

A primeira depende de leitores. A segunda depende de leitores que acreditem no vendedor mais do que nas evidências.

A guerra das edições verdadeiras: quando todos os outros eram falsos

Chegamos ao capítulo mais saboroso da história.

Em 1923, a Livraria Quaresma anunciou uma edição de aproximadamente 400 páginas do Livro de São Cipriano, vendida por cinco mil-réis.

Até aí, nada de extraordinário.

Mas o anúncio, reproduzido na pesquisa acadêmica de Inês Teixeira Barreto, continha uma advertência aos compradores.

Segundo a própria livraria, existiam muitos livros de São Cipriano, mas somente o publicado por ela seria o verdadeiro.

Os concorrentes foram classificados categoricamente:

“OS OUTROS SÃO FALSOS”.

É maravilhoso.

Um estabelecimento vendia escritos atribuídos a um personagem de existência historicamente incerta, cujo suposto manuscrito original não estava documentado, e ainda encontrava disposição para acusar toda a concorrência de falsificação.

A segurança do departamento comercial era inversamente proporcional à disponibilidade de provas históricas.

A acusação, naturalmente, era da própria anunciante. Não constitui demonstração de que as demais editoras tenham efetivamente falsificado documentos ou praticado crimes.

O que se pode verificar é a estratégia publicitária: apresentar a própria edição como exclusiva e desqualificar as concorrentes sem oferecer, no anúncio, uma comprovação histórica convincente dessa exclusividade.

Em um mercado de livros religiosos e mágicos, o adjetivo verdadeiro funcionava como uma espécie de selo de qualidade autoatribuído.

E não era o único.

Ao longo das décadas, apareceram publicações com expressões como legítimo, antigo, poderoso, gigante, completo e milagroso.

Em 1940, por exemplo, a Brasil Editora lançou uma obra identificada como O Livro Gigante de São Cipriano - O Mais Completo e Verdadeiro.

Repare no avanço competitivo.

Já não bastava ser verdadeiro.

Era preciso ser gigante, completo e, evidentemente, mais verdadeiro do que os demais.

Se a disputa tivesse continuado exclusivamente pelo tamanho dos adjetivos, talvez hoje estivéssemos diante do Supremo, Definitivo e Irrevogável Livro de São Cipriano, Reconhecido por Todas as Potências Celestes e Infernais.

Com prefácio assinado pelo próprio departamento jurídico do Além.

Livro de São Cipriano: capa preta, capa de aço, capa vermelha... qual é o verdadeiro?

A multiplicação das edições brasileiras tornou o universo de São Cipriano ainda mais confuso.

Entre os títulos e formatos comercializados ao longo do tempo aparecem o Livro de São Cipriano de Capa Preta, o Capa de Aço, o Livro Negro e o Livro Encarnado.

Essas denominações não representam uma classificação histórica universal, muito menos uma hierarquia comprovada de poderes sobrenaturais.

São nomes associados a diferentes publicações e tradições editoriais.

O pesquisador Félix Francisco Castro Vicente descreve como as versões brasileiras do século XX se afastaram, em diferentes graus, das compilações portuguesas.

Algumas mantiveram parte importante do material tradicional. Outras incorporaram conteúdos novos, reorganizaram capítulos ou eliminaram seções inteiras.

Uma edição brasileira estudada por ele, associada a N. A. Molina, por exemplo, não conserva as extensas listas de tesouros tão importantes em determinadas versões portuguesas.

Em outras palavras, dois leitores podem comprar livros chamados São Cipriano e encontrar conteúdos consideravelmente diferentes.

A existência de diversas versões é perfeitamente normal na história editorial. O problema começa quando alguém utiliza essa confusão para assegurar possuir uma exclusividade sobrenatural que não consegue demonstrar.

Não há uma edição comprovadamente escrita por São Cipriano da qual todas as outras possam ser classificadas, historicamente, como cópias falsas.

Há compilações mais antigas, edições posteriores, adaptações e diferentes tradições.

Se alguém lhe garantir que determinada cor de capa é prova de autenticidade, convém lembrar que tinta de impressão não é documento histórico.

E aço, por mais impressionante que pareça, também não autentica manuscritos.

A Bruxa de Évora e os personagens que entraram na história

Outro ingrediente dessa extraordinária salada editorial é a chamada Feiticeira de Évora.

O nome aparece em compilações portuguesas, relacionado a narrativas sobre feitiçaria e à personagem conhecida como Lagarrona.

A história integra a tradição literária portuguesa e tem antecedentes em obras anteriores ao famoso grimório.

Isso, porém, não demonstra que uma suposta bruxa histórica de Évora tenha sido coautora dos livros atribuídos a Cipriano.

É mais um exemplo de como personagens, narrativas religiosas, receitas populares e histórias antigas acabaram reunidos sob uma única marca editorial.

O procedimento lembra uma coletânea musical: cada geração acrescenta alguns sucessos, retira faixas menos atraentes e lança uma nova edição.

Só que, nesse caso, a coletânea promete falar com demônios, localizar ouro escondido e resolver problemas conjugais.

Ao chegar ao Brasil, o Livro de São Cipriano encontrou um universo religioso muito mais diversificado do que o de suas primeiras compilações portuguesas.

Ao longo do século XX, algumas edições passaram a incorporar referências e práticas associadas à Umbanda, à Quimbanda, ao Catimbó e a outras tradições mágico-religiosas brasileiras.

Esse processo foi estudado por Inês Teixeira Barreto em sua dissertação Da mandinga à macumba: a trajetória do Livro de São Cipriano no Brasil, defendida na PUC-SP em 2022.

É fundamental não inverter a relação histórica.

O Livro de São Cipriano não surgiu como escritura fundadora da Umbanda, da Quimbanda ou do Candomblé. Sua tradição editorial tem raízes europeias.

As conexões brasileiras refletem processos posteriores de circulação cultural, apropriação e adaptação.

E há uma distinção especialmente importante: o fato de editoras incluírem determinados rituais em livros comercializados para públicos religiosos não significa que esses conteúdos sejam reconhecidos como autênticos por todas as comunidades às quais fazem referência.

O mercado editorial pode reproduzir tradições. Também pode modificá-las, simplificá-las e misturá-las conforme seus interesses.

Isso não desqualifica as religiões envolvidas. Pelo contrário: obriga a distinguir a diversidade efetiva das práticas religiosas daquilo que empresas decidiram imprimir para vender.

O que merece crítica não é a fé de ninguém, mas a disposição comercial de apresentar qualquer compilação como autoridade indiscutível sobre ela.

Um best-seller que a história literária quase esqueceu

Apesar da fama de livro maldito, o São Cipriano fez algo que muitos escritores respeitados jamais conseguiram: permaneceu à venda por gerações.

A pesquisa publicada por Inês Teixeira Barreto em 2025, na revista Cadernos de Pós-Graduação em Letras, reúne evidências dessa longevidade.

Além das 39 edições identificadas no levantamento de cem anos, a pesquisadora recuperou comentários da imprensa que já tratavam o livro como um fenômeno comercial.

Em 1948, o crítico Cassiano Nunes chegou a compará-lo à Bíblia em uma observação sobre livros campeões de vendas no Brasil.

Isso não equivale a demonstrar que ambos tenham vendido quantidades semelhantes. Trata-se de um testemunho sobre a extraordinária reputação comercial do São Cipriano.

O contraste é interessante: enquanto intelectuais discutiam quais obras deveriam representar a grande literatura nacional, milhares de leitores buscavam respostas nas páginas de um manual de magia.

O livro também enfrentou preconceitos e perseguições. Exemplares eram escondidos, destruídos ou apreendidos em operações contra práticas consideradas feitiçaria e curandeirismo.

A repressão a manifestações religiosas, especialmente de matrizes africanas, faz parte desse contexto e não deve ser confundida com uma avaliação objetiva da eficácia dos rituais.

Curiosamente, a pesquisa não encontrou evidências de uma proibição editorial sistemática do Livro de São Cipriano durante o Estado Novo ou a ditadura militar.

O livro ganhou a fama de perigoso e proibido sem que sua circulação comercial dependesse de uma proibição nacional permanente.

Uma reputação assustadora, evidentemente, também pode ser bastante útil quando se pretende vender mistérios.

O Livro de São Cipriano é perigoso? E existe uma versão original?

As duas perguntas continuam alimentando a curiosidade popular.

É perigoso ler o Livro de São Cipriano?

Não existe evidência verificável de que a simples leitura de suas páginas provoque acontecimentos sobrenaturais. Histórias de maldições, aparições e punições por abrir o livro pertencem ao campo das crenças e tradições populares.

Isso não significa que todo conteúdo seja inofensivo. Algumas receitas antigas descrevem atos perigosos, crueldade com animais ou procedimentos inadequados para tratar doenças. São textos históricos, não recomendações práticas.

Qual é o Livro de São Cipriano original?

Não existe um manuscrito comprovadamente escrito pelo Cipriano da lenda que permita apontar uma edição comercial como sua reprodução autêntica.

Para conhecer uma das principais tradições portuguesas, é possível consultar gratuitamente o exemplar de O Grande Livro de S. Cypriano ou Thesouro do Feiticeiro preservado pela Biblioteca Nacional de Portugal.

Para estudar as transformações brasileiras, é necessário comparar edições, editoras, datas e conteúdos.

A pergunta mais útil deixa de ser qual livro possui maior poder e passa a ser: quem organizou esta edição, quando e com base em quais textos?

O resultado talvez não seja tão emocionante quanto descobrir um pacto diabólico, mas costuma ser muito mais esclarecedor.

O maior feitiço de São Cipriano foi transformar papel em dinheiro

Depois de examinar a história, as edições, os anúncios e as disputas comerciais, é difícil não admirar a extraordinária capacidade de sobrevivência do Livro de São Cipriano.

A obra atravessou países, mudanças políticas, transformações religiosas e sucessivas gerações de leitores.

Foi reescrita, ampliada, adaptada e apresentada como verdadeira por diferentes empresas.

Naturalmente, a presença de oportunismo publicitário não significa que todos os editores tenham agido de má-fé, nem que os leitores sejam ingênuos. Há valor histórico, literário, religioso e antropológico real nessas publicações.

Mas a sucessão de promessas grandiosas e disputas de autenticidade oferece uma lição que transcende a magia.

Uma afirmação não se torna verdadeira porque alguém a imprimiu em letras douradas sobre uma capa preta.

Tampouco porque uma editora chamou os concorrentes de falsificadores.

No fim, o Livro de São Cipriano talvez seja mais revelador quando deixamos de procurar demônios em suas páginas e começamos a examinar quem escreveu, organizou, anunciou e vendeu essas páginas.

A lenda conta que Cipriano abandonou a feitiçaria, queimou seus manuscritos e renunciou aos poderes do mundo.

Se isso aconteceu ou não, a história não permite afirmar.

Mas os editores que vieram depois parecem ter chegado a um entendimento bastante diferente sobre a renúncia aos bens materiais.

O santo, segundo a lenda, abriu mão de tudo. Os comerciantes, evidentemente, não viram motivo para acompanhá-lo.

Fontes e documentos consultados