Da autoajuda ao Planalto: teoria sem validação científica virou livros, contratos públicos e promessa de política nacional
O que: Augusto Cury, candidato à Presidência pelo Avante, construiu um império comercial baseado na Teoria da Inteligência Multifocal, criada por ele. O artigo examina a trajetória empresarial da teoria e sua tentativa de transformá-la em proposta política.
Por que: Segundo a matéria, Cury desenvolveu a teoria após enfrentar uma depressão no início dos anos 1980 e passou a estudar os mecanismos do pensamento. Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo contestam o conceito por falta de validação estabelecida por revisão por pares.
Quem: Augusto Cury, psiquiatra, escritor e candidato presidencial. Também aparecem a Arco Educação, a rede Multiplan, prefeituras que contrataram o programa Escola da Inteligência e cinco psiquiatras consultados pela Folha.
Onde: A teoria foi transformada em livros, cursos e programas educacionais vendidos no Brasil. O MultiSer foi instalado no RibeirãoShopping, no interior de São Paulo.
Quando: Cury publicou Inteligência Multifocal em 1999 e lançou a Escola da Inteligência em 2010. A Arco Educação comprou participação no programa em 2020, e a candidatura presidencial foi anunciada em 2026.
Quanto: Cury declarou patrimônio de R$ 242 milhões, o maior entre os candidatos presidenciais de 2026 mencionados no artigo. A Arco Educação pagou R$ 288 milhões por 60% da Escola da Inteligência, avaliada em R$ 480 milhões.
O artigo também informa que Cury vendeu mais de 40 milhões de livros, enquanto O Vendedor de Sonhos superou 2,5 milhões de exemplares. O programa educacional atendia cerca de 900 colégios e 330 mil alunos quando ocorreu a negociação com a Arco.
Como: A teoria foi apresentada inicialmente em livros e depois adaptada para obras de autoajuda, romances, palestras, cursos e materiais didáticos. A Escola da Inteligência passou a ser vendida a prefeituras e escolas, muitas vezes sem licitação, sob a justificativa de exclusividade.
Glossário: A revisão por pares é a avaliação de estudos por pesquisadores da mesma área. No texto, ela aparece como critério de validação científica da Teoria da Inteligência Multifocal.
A Gazeta do Povo pinta Augusto Cury como quem transformou “ciência” em catálogo: teoria sem validação por revisão por pares, diploma em universidade sob questionamentos e contratos públicos como ateliê de brechas. Aí a autopromoção vira política - porque, claro, ninguém resiste a vender “gestão da emoção” com carimbo de presidenciável. (www1.folha.uol.com.br)
Já a Folha de S. Paulo também crava o problema na base: consulta a psiquiatras critica a falta de respaldo científico e aponta controvérsias sobre formação e reconhecimento acadêmico. Diverge no ritmo: menos novela do “império”, mais tribunal técnico. (www1.folha.uol.com.br)
A Agência Brasil e o UOL tratam o candidato com outras lentes: destacam biografia, propostas e cobertura de campanha, quase sempre sem entrar fundo na briga metodológica - como se eleitorado precisasse primeiro de IA e drones, e só depois de evidência. (agenciabrasil.ebc.com.br)
Enquanto isso, Multiplan e prefeitura celebram “centro de gestão da emoção” e resultados, ou seja: a mesma história tem duas versões, dependendo de quem assina a nota. (www2.multiplan.com.br)
Conclusão: O framing do publisher é o de “charlatanismo premiado por marketing”: a política aparece como extensão natural de um produto. O desfecho é simples (e irritante): a dúvida científica vira pano de fundo, e a narrativa tenta convencer pelo tamanho do império, não pela prova.
Fortuna como “prova” de método: o texto constrói o crescimento de Augusto Cury (Avante) a partir de um patrimônio declarado de R$ 242 milhões, tratando esse número como consequência direta de um “império” feito com livros, cursos e palestras.
Da teoria da mente ao varejo e ao poder público: a narrativa liga a Teoria da Inteligência Multifocal a uma cadeia de produtos (obras de autoajuda, treinamento para professores e projetos vendidos a prefeituras e escolas particulares).
Estratégia de marketing: psicologia embaladinha: o texto sugere que Cury “traduz” conceitos para uma linguagem acessível e usa ficção e entretenimento (como o romance O Vendedor de Sonhos e sua adaptação) para ampliar alcance.
Lucro com contratos e “brecha” em licitação: segundo a matéria, a venda de materiais pode ocorrer diretamente a prefeituras, muitas vezes sem licitação, com justificativa de “exclusividade” - o que é apresentado como uma utilização de brecha legal.
Expansão corporativa e cifras: o artigo inclui dados de contratações e compra societária (como a Arco Educação comprando participação) para sustentar a ideia de escala e profissionalização do negócio.
Contestação científica aparece como contraponto: o texto afirma que psiquiatras consultados pela Folha refutaram a teoria por falta de validação via revisão por pares, e dizem que ela não é usada na prática clínica.
Discrepância acadêmica vira ponto crítico: a matéria destaca divergências entre o que Cury descreve no plano ao TSE (doutorado em Psicologia) e o que aparece no currículo Lattes (PhD em administração), além de chamar atenção para o status de credenciamento da instituição.
Intenção final: converter venda em governo: ao encerrar, a matéria sustenta que “O Brasil dos Nossos Sonhos” aplica a mesma lógica de cursos e contratos à política nacional, com foco em gestão da emoção ao lado de políticas econômicas.
Reflexão sobre a intenção do autor: o texto parece menos interessado em avaliar a teoria “para além da crença” e mais em mostrar um roteiro: do conteúdo contestado ao produto lucrativo, e do produto ao Estado. A ironia embute a mensagem de que, para certas figuras públicas, o mercado funciona como validação - e ciência vira detalhe.
Fontes presentes: O texto se apoia principalmente em alegações do próprio Augusto Cury (“dados fornecidos por ele mesmo”), e em checagens indiretas citando a Folha de S.Paulo (cinco psiquiatras refutando a Teoria da Inteligência Multifocal, com destaque para Wagner Gattaz). Ele também usa documentos públicos como plano de governo no TSE e currículo Lattes/CNPq, além de informações sobre a Florida Christian University e o status de credenciamento na ABHE. (www1.folha.uol.com.br)
Fontes ausentes: Faltou a resposta da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) - aliás, a Folha chegou a pedir posicionamento e não recebeu retorno. Também não aparecem fontes de defesa de Cury (há, por exemplo, direito de resposta em outro contexto) nem revisões/validações acadêmicas de pesquisadores que enxerguem a teoria como útil. (www1.folha.uol.com.br)
No campo institucional, não há voz de órgãos de controle (MP/TCU/tribunais) sobre possíveis irregularidades em compras públicas, só a narrativa de “contratação” e “exclusividade” sem disputa formal. (paranagua.pr.gov.br)
Avaliação do impacto: A seleção puxa a história para o lado “mercado + contestação científica”, mas sem o contraponto equivalente (“quem defende, com base em quê, e quais limites”). Isso tende a reforçar um viés de deslegitimação, especialmente ao sugerir que a falta de validação clínica basta para decretar a teoria como improvável e o negócio como suspeito. (www1.folha.uol.com.br)
Quando Cury se manifesta em outros veículos, sustenta que não há “mitos” e que contestações exigiriam prova objetiva. (observatoriodaimprensa.com.br)
Ausências que impedem leitura completa (ou mudariam o sentido):
De onde vêm os números? A matéria cita patrimônio (R$ 242 milhões), vendas (40 milhões) e contratos (valores e municípios), mas não mostra documentos ou critérios. Que fontes independentes (Justiça Eleitoral, balanços, relatórios de vendas, processos licitatórios) confirmam?
A “teoria” foi testada como ciência? Segundo a matéria, especialistas dizem que não há validação por revisão por pares e que não é usada na prática clínica. Que estudos específicos (métodos, amostras, resultados) existiriam - e quais falharam?
Como funcionam contratos e “sem licitação”? O texto sugere que compras municipais ocorreram “muitas vezes sem licitação” por alegação de exclusividade. Quais processos (dispensa/inexigibilidade, justificativas, auditorias do TCU/MP) sustentam cada caso?
O currículo bate com o plano? A matéria aponta diferença entre “doutorado em Psicologia Multifocal” e “PhD em administração” no Lattes. O que exatamente foi apresentado ao TSE (termos, carga, área), e como Cury descreve isso formalmente?
O texto se esforça para parecer “perfil factual”, mas vai pingando avaliações ao longo do caminho. “Segundo Cury”, “fornecidos por ele mesmo e pelo mercado” sinalizam distância - ainda assim, a narrativa constrói um herói empreendedor em tom de façanha, com linguagem de crescimento (“império comercial”, “virou trilogia, peça… e filme”) que aumenta o brilho do feito. Ao mesmo tempo, quando aparece a contestação científica, o enquadramento vem com frases prontas para cortar: “não possui validação… por revisão por pares” e “criar uma teoria do nada é bastante arriscado” (atribuição a Wagner Gattaz), reforçadas por um “descompasso” que vira quase um enigma.
Há eufemismos parciais e, em seguida, palavras mais intensas do que o necessário. “Brecha legal usada” e “jogada seguinte” dão leveza a um tema que poderia ser descrito de modo mais neutro; já “tentando aplicar ao país inteiro” dramatiza a passagem de mercado para governo. Metáforas aparecem como “tempero” (“infiltradas”, “neutralizar a dor humana”, “espetáculo aos olhos”), e o texto também usa sarcasmo indireto ao questionar o valor do diploma e sugerir que não é “falso”, mas “vale o quê?” - uma provocação que, no fim, tenta virar moral.
No corpo, há um possível clickbait: o título promete explicar “como” se ergueu um império a partir de uma teoria controversa, mas a maior parte do espaço vai para vendas, contratos e desdobramentos; a “controversia” entra mais tarde, em dois blocos, e com autoridade externa. A lógica é razoável, mas o texto não é totalmente imparcial: ele alterna entre romance de sucesso e tribunal acadêmico, deixando o leitor com a sensação de que a conclusão já estava no roteiro.
Fontes usadas para sustentar o “império comercial” e o tamanho do patrimônio
Evidências/autoridades relacionadas à teoria e sua contestação
Documentos acadêmicos e verificações externas citadas