O que: As construtoras New Home e Hastiforme, responsáveis pelo prédio que desabou na Zona Leste de São Paulo, também são investigadas por suposto estelionato. Ao menos dez pessoas afirmam ter pago ou financiado apartamentos que não foram entregues.
Por que: A Polícia Civil apura se as empresas receberam valores por imóveis que nunca foram entregues. A investigação também inclui o proprietário do terreno, que afirma não ter recebido pelo imóvel vendido aos responsáveis pela obra.
Quem: Ronaldo Vivaqua, apontado como sócio oculto das empresas, está preso. Cristiano Vivaqua, o engenheiro responsável pela construção e Isis Brandão, administradora das construtoras, estão foragidos, segundo a polícia.
Onde: Os casos envolvem edifícios na Zona Leste de São Paulo. O prédio que desabou ficava na região da Água Rasa.
Quando: O desabamento ocorreu no fim de semana e deixou seis mortos. A prefeitura pediu a demolição do prédio em 2021, um novo projeto foi apresentado em 2022, o alvará foi emitido em 2023 e a obra foi vistoriada em 2024.
Como: Antigos clientes procuraram a polícia após o desabamento e relataram ocorrências anteriores contra as construtoras. Pelo menos quatro inquéritos investigam a suposta prática de estelionato.
A obra havia sido considerada irregular pela prefeitura. O alvará de 2023 exigia a demolição da estrutura existente, mas a polícia suspeita que a construção que caiu fosse a mesma estrutura anterior.
Glossário: Estelionato é o crime de obter vantagem causando prejuízo a outra pessoa por meio de fraude. Dolo eventual é a hipótese em que alguém prevê a possibilidade de causar um resultado e, ainda assim, prossegue com a conduta.
O GLOBO vende o caso como um “desabamento que também virou estelionato”. A sacada é esperta: primeiro mostra a tragédia, depois embrulha o golpe imobiliário como se fosse brinde. Enquanto isso, Folha abre com o padrão de encrencas da New Home: embargos, multas, obras paradas e a saga de “prédio que nunca entrega”. A narrativa dela é mais “histórico de problema”, menos “momento do crime”.
Já a CNN Brasil troca o foco para o roteiro jurídico: prisão, decisão do Tribunal e a ideia de previsibilidade do desastre. O desabamento vira processo.
Ou seja: cada veículo escolhe uma lente diferente. O Globo usa a lente do golpe; a Folha, da recorrência; a CNN, da condenação em etapas.
Conclusão: O framing do publisher trata o desabamento como isca emocional e o estelionato como explicação complementar. Funciona para dar segunda intenção ao leitor, mas também facilita o desvio do “por que isso se repetiu” para um “quem foi preso primeiro”.
O texto conclui que as construtoras ligadas ao prédio que desabou na Zona Leste de São Paulo são investigadas não só pelo desastre com mortes, mas também por indícios de estelionato. Segundo a Polícia Civil, há pelo menos dez relatos de compradores que pagaram por apartamentos das empresas New Home e Hastiforme e não receberam os imóveis.
A matéria aponta que o proprietário do terreno também afirma ter sido lesado e levou o caso à Justiça, alegando calote. Ou seja: a investigação se estende do desabamento para disputas contratuais e financeiras.
O texto informa que até o momento apenas Ronaldo Vivaqua foi preso, enquanto Cristiano Vivaqua, o engenheiro responsável e Isis Brandão seguem foragidos. Segundo a polícia, a tendência é indiciar por homicídio com dolo eventual.
A construção narrativa do artigo sugere um padrão: ex-clientes teriam buscado a polícia por estelionato também em outros edifícios na mesma região, além do caso do prédio que caiu.
A matéria afirma que há pelo menos quatro inquéritos em andamento para apurar a suposta prática criminosa. Para o leitor, a conclusão prática é que o caso pode ganhar outras camadas, além da tragédia imediata.
No plano institucional, o texto descreve uma cadeia de ações e vistorias: prefeitura entrou com ação de demolição por obra irregular, houve alvará com condição de demolição prévia e, em 2024, a servidora teria atestado ter sido feita a demolição, embora “ao que tudo indica” a estrutura seria a mesma que caiu.
A reflexão final do texto, ainda que sem dizer em voz alta, é sobre intenção e responsabilidade: quando a narrativa troca alvará e vistoria por “ao que tudo indica”, fica no ar a pergunta sobre como tanto gente confiou no processo. A matéria constrói a impressão de que o problema não foi só um ponto de falha, mas um conjunto de decisões e omissões.
Fontes presentes: A matéria se apoia quase toda na Polícia Civil, com fala da delegada Deidiene Fialho. Também menciona a oitiva de uma servidora municipal que vistoriou a obra em 2024, além do relato do proprietário do terreno. (www1.folha.uol.com.br)
Fontes ausentes: A defesa dos investigados, que em outros veículos contesta a versão policial dizendo que havia autorização judicial para a obra, não aparece. (www1.folha.uol.com.br)
As construtoras (nota institucional) também ficam de fora, embora outros meios tenham registrado a alegação de que não haveria elementos para atribuir o acidente apenas à empresa. (noticias.uol.com.br)
Ficam ausentes ainda perspectivas técnicas: o Crea-SP e a Controladoria Geral do Município são citados como atores relevantes em outros relatos, mas não nesta seleção. (www1.folha.uol.com.br)
E, para a parte do estelionato, faltam as vítimas dos supostos golpes (os compradores que registraram BO), que serviriam para mostrar como a narrativa policial vira experiência concreta. (diariodocentrodomundo.com.br)
Avaliação do impacto: Com esse recorte, a matéria privilegia a explicação oficial (Polícia) e a cronologia administrativa, reduzindo espaço para contraponto jurídico e técnico. O viés tende a empurrar o leitor para a tese de “conhecimento prévio” e fraude em bloco, sem equilibrar com contestações e apurações paralelas. (www1.folha.uol.com.br)
O que o texto não informa e mudaria a leitura
Segundo a matéria, há “ao menos dez” boletins de ocorrência, mas não diz datas, valores pagos, números de unidades nem se são casos individualizados ou todos contra as mesmas sociedades. Assim, o tamanho do suposto golpe fica difícil de calibrar.
O artigo afirma que a polícia apurou indiciamento por “homicídio com dolo eventual”, mas não detalha quais condutas ligariam os investigados ao risco que levou ao desabamento.
Há menção a demolição “após ação judicial” e vistoria em 2024, porém falta explicar por que a estrutura anterior teria sido considerada demolida e, mesmo assim, teria sido a mesma que caiu. Isso afeta a interpretação sobre responsabilidades e falhas de fiscalização.
Antes de formar opinião, vale perguntar:
1) O que exatamente foi comprovado e o que é alegação?
Segundo o texto, há “boletins de ocorrência”, inquéritos e prisões seletivas. Fica faltando: quais provas concretas ligam cada investigado ao suposto estelionato.
2) Houve entrega parcial, obra diferente ou “culpa” do cliente?
O texto sugere compra e não recebimento de apartamentos, mas não detalha contratos, prazos, garantias ou se houve atraso por insolvência, disputa judicial ou mudança de projeto.
3) O papel da fiscalização foi causal ou burocrático?
Segundo a matéria, a servidora dizia não ter responsabilidade técnica da estrutura. Pergunta crítica: a vistoria detectou irregularidades relevantes e quais medidas foram feitas após 2024?
A matéria aposta numa imparcialidade formal, mas com tom de investigação já “fechando” a acusação. O texto usa linguagem de autoridade da Polícia Civil e garante lastro com números: ao menos dez BOs, quatro inquéritos. Ainda assim, a expressão de certeza vai ficando escorregadia quando sugere enquadramentos futuros, como a indicação de que os investigados devem ser indiciados por homicídio com dolo eventual.
O aumento aparece no encadeamento dramático: do desabamento com seis mortos para um “pacote” de crimes. Isso não é exatamente clickbait, mas funciona como amplificação emocional, reforçada por termos como “trágico, muito infeliz”, que pedem atenção sem acrescentar evidência nova. Há também um cuidado eufemístico: a matéria trata “calote” e “suposta prática” com doses diferentes, alternando familiaridade jornalística com prudência jurídica, o que pode soar oportunista.
O texto evita metáforas e sarcasmo direto, mas recorre a uma estratégia de lógica por proximidade: se houve BOs, então a narrativa se estende a “outros edifícios”, criando um efeito de continuidade. Não há ad-hominem explícito, porém a escolha de nomes e cargos cria um perfil culpabilizante antes do trânsito em julgado.
Em discrepância título-corpo, o título é fiel ao conteúdo: estelionato aparece logo no primeiro parágrafo. A diferença é que o corpo demora a aprofundar como esses casos se conectam ao desabamento, deixando o leitor com a conclusão pronta mais pelo ritmo do que por detalhes. Resultado: menos “provas no prato”, mais “sentença em construção”, só que bem vestida de trecho policial.
Fontes identificáveis citadas no texto
Evidências e elementos usados para sustentar as ideias centrais
O que o texto faz com essas fontes (e possíveis lacunas)