'A geração sóbria': por que cada vez mais jovens trocam o álcool por remédios de ansiedade — e por que isso preocupa

Cada vez mais, jovens adultos estão tomando medicamentos para ansiedade para se sentirem embriagados em festas. Mas especialistas alertam que isso tem consequências para a saúde.

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Família

Publicado por: G1
Resumo estruturado

O que diz o texto original?

O que: Jovens adultos estão substituindo o álcool por medicamentos de prescrição e peptídeos para reduzir a ansiedade social, relaxar e se sentir embriagados em festas. A matéria afirma que esse uso, muitas vezes sem supervisão médica, pode causar dependência, problemas de saúde e até morte.

Por que: Segundo o texto, os usuários buscam socializar sem ressaca, evitar as calorias do álcool e controlar sintomas de ansiedade. A ansiedade social também parece afetar a Geração Z de forma intensa, e especialistas citados sugerem que o isolamento durante a pandemia pode ter agravado o problema.

Quem: A matéria apresenta relatos de Matt, Mei e Sofia, que usaram pregabalina, propranolol ou outros medicamentos para festas, trabalho, estudos e encontros. Também são ouvidos pesquisadores e especialistas em dependência química, psicologia e farmacologia.

Onde: O fenômeno é descrito em diferentes países, incluindo Reino Unido, China, Ucrânia, Índia, Jordânia e Estados Unidos. Parte dos medicamentos é obtida ilegalmente pela internet e por plataformas de mídia social.

Quando: Matt afirma que começou a usar os medicamentos há dois anos. Na Inglaterra, a pregabalina foi classificada como droga controlada em 2019, e os dados citados sobre mortes abrangem o período de 2020 a 2024.

Quanto: Uma pesquisa da Drinkaware apontou que 26% dos britânicos de 18 a 24 anos não consumiam álcool no ano passado, contra 7% em 2012. O uso global de pregabalina mais que quadruplicou entre 2008 e 2018.

Entre 2020 e 2024, a pregabalina foi mencionada em 2.360 certidões de óbito por envenenamento relacionado a medicamentos na Inglaterra e no País de Gales. Entre 2015 e 2019, foram 768 menções.

Matt diz gastar 18 centavos de libra, cerca de R$ 1,20, nos medicamentos usados em uma noite.

Como: Os jovens tomam medicamentos como pregabalina e propranolol, às vezes em doses acima das prescritas, ou combinam diferentes substâncias - prática chamada de “stacking”. As redes sociais ajudam a divulgar os efeitos, formar comunidades de usuários e, em alguns casos, vender os produtos.

A matéria afirma que a pregabalina pode provocar relaxamento e euforia, enquanto o propranolol reduz sintomas físicos da ansiedade. O uso em altas doses ou de produtos comprados no mercado ilegal aumenta os riscos, porque a composição e a concentração podem ser incertas.

Glossário: A “Geração Z” é o grupo de pessoas nascidas, em geral, entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2010. “Geração sóbria” é o apelido associado à parcela desses jovens que evita o consumo de álcool. “Stacking” significa combinar medicamentos ou substâncias para obter determinados efeitos.

Cobertura comparada

Como outros veículos noticiaram o mesmo assunto?

Na lógica de “Geração sóbria”, o álcool vira vilão e o comprimido vira passaporte para a festa - mas com a etiqueta gigante de “perigo: pode dar ruim”. Já a cobertura da BBC também descreve o “stacking” (combo de remédios) e enfatiza riscos e falta de supervisão, porém dedica mais espaço ao contraste “menos ruim que beber demais, mas ainda assim ruim”. (please.untaint.us)

A The Guardian muda o tom: em vez de tratar como só “modinha decadente”, também discute o mercado de “lubrificantes sociais” e a promessa química de apagar a ansiedade - e isso soa quase como publicidade disfarçada (especialmente quando remédios e substâncias aparecem como solução mágica para vida social). (theguardian.com)

Enquanto isso, fontes de saúde adotam o freio de mão: YoungMinds e MedlinePlus insistem que não é para misturar pregabalina com álcool e alertam para efeitos sérios, inclusive risco de piora comportamental em alguns contextos. Ou seja: não é “troca segura”; é “troca perigosa feita do jeito errado”. (youngminds.org.uk)

Conclusão (framing): O G1 escolhe um enquadramento de alerta moral-sanitário: transformar ansiedade social em história de “substância que seduz” e “consequência que assombra”. As divergentes abrem espaço para debate cultural ou prevenção clínica - aqui, o susto vence a nuance.

Conclusões

A que conclusões o texto original chega?

  • O artigo sustenta uma troca cultural em crescimento: Segundo o texto, jovens adultos (especialmente da Geração Z) estariam reduzindo o álcool e buscando medicamentos e substâncias para “embriagar” ou facilitar a socialização, numa lógica de “sem ressaca”.
  • O gatilho narrado é ansiedade social: Segundo a matéria, personagens relatam medo de errar ao falar e sensação de exclusão; a “solução” vira um comprimido antes de sair e, depois, se espalha para outras situações da vida.
  • A mídia constrói um mercado viável pelas redes sociais: Segundo o texto, hashtags e influenciadores promovem “combinações” (o chamado stacking), e haveria até venda/distribuição por canais online - incluindo fontes não regulamentadas.
  • Há um contraste central: “mais seguro” no marketing, “mais arriscado” no mundo real: Segundo especialistas citados, as drogas podem ser menos prejudiciais que álcool em certos usos, mas não são “inofensivas”, e o uso fora de prescrição em altas doses aumenta riscos.
  • Possíveis consequências enfatizadas: Segundo a matéria, são citados dependência, piora da ansiedade, insônia e episódios com pensamentos suicidas quando pessoas tentam interromper.
  • Evidências usadas para dar peso ao alerta: Segundo o texto, há dados sobre aumento do uso e de mortes relacionadas à pregabalina (com números para Inglaterra e País de Gales), além de ações de regulação em países como Reino Unido e China.
  • Fecho com tese de inevitabilidade: Segundo a matéria, mesmo com desencorajamento médico, a busca por uma “cura fácil” deve aumentar, especialmente porque o acesso e a narrativa de segurança circulam rápido.

Reflexão sobre intenção: a matéria parece buscar alertar sem perder o gancho do fenômeno (o “manual” das redes): mostrar como a promessa de controle emocional pode virar dependência - e como a “geração sóbria” pode estar só mudando o produto do copo.

Vozes e ausências

Quais vozes aparecem - e quais estão ausentes?

Fontes presentes: O artigo dá voz a usuários (Matt, Mei e Sofia) e a um “painel” de especialistas majoritariamente acadêmicos: Liam Knowles (dependência), Emily Jones (psicologia), David Nutt (farmacologista) e Mykyta Lapin (epidemiologia/Redução de danos). Também usa dados indiretos (p.ex., University College London, Drinkaware, ONS) e menciona órgãos/regras do Reino Unido (reclassificação e revisão oficial), mas sem entrevistá-los em carne e osso.

Fontes ausentes: Ficam fora quem receita no dia a dia e quem dispensa: clínicos de saúde mental, médicos generalistas e farmacêuticos, além de diretrizes comentadas por eles (ou seja: como evitar desvio, reduzir risco e acompanhar retirada). Também não aparece a perspectiva institucional de sociedades psiquiátricas sobre o equilíbrio “benefício x risco” do uso - como alerta a orientação da Royal College of Psychiatrists para manejo seguro e riscos do uso não prescrito. (rcpsych.ac.uk)
Em vez disso, a narrativa puxa para “atalho de festa”, com pouca explicação de prevenção e monitoramento, embora exista orientação específica para prescritores sobre risco de uso indevido. (gov.uk)

Avaliação do impacto: Essa seleção tende a criar viés de alarme (“geração viciando com comprimido”), enquanto apaga a parte prática: como o sistema de saúde tenta reduzir danos e acompanhar casos. Resultado: o leitor sai com medo - e com pouco controle do que fazer, de verdade.

O que ignorados disseram em outros meios: matérias como a do The Independent incorporam nuances sobre riscos e reclassificação, mas em geral ainda com foco jornalístico no problema, não no “como tratar/acompanhar” com os provedores. (independent.co.uk)

Lacunas de contexto

Que informações relevantes ficaram de fora?

Falta contexto numérico de “cada vez mais”
O texto diz que cresceu o uso de remédios e cita números (ex.: pregabalina quadruplicou; “28%” com altos níveis de ansiedade), mas não informa qual período e fonte exata para “cada vez mais jovens”. Sem isso, a escalada geral fica mais impressionista do que mensurável. (Segundo o texto, mas sem amarrações completas de série.)

Falta estimativa de prevalência no público-alvo
Há afirmações de que “é difícil saber exatamente quantos” usam, e o artigo não oferece uma ordem de grandeza confiável para o fenômeno. Isso impede saber se é tendência marginal ou massiva. (Segundo o texto, a matéria reconhece a lacuna.)

Faltam contrapesos: comparação direta com consumo de álcool e efeitos reais
O texto compara riscos (cita OMS e “pelo menos sete tipos de câncer”), mas não traz dados equivalentes sobre danos/overdose e saúde mental especificamente para usuários desses remédios vs. álcool. Com isso, a conclusão “mais saudável” fica dependente de opiniões de especialistas, não de um balanço de evidências. (Segundo a matéria.)

Leitura crítica

O que considerar antes de formar opinião?

1) “Alívio” ou “risco mascarado”?
Segundo a matéria, alguns jovens buscam efeitos de “embriaguez” com menos ressaca. Que comparações existem (dose, frequência, efeitos de longo prazo) entre esses remédios usados sem prescrição e o álcool? O texto compara, mas não mostra um quadro de riscos quantificado para uso recreativo.

2) Quanto disso é evidência, quanto é exemplo?
A reportagem cita personagens (Matt, Mei, Alex) e também dados (UCL, mortes, mortes na Inglaterra). Essas histórias têm base estatística semelhante ao conjunto do público? Quais números sustentam a proporção “cada vez mais” além de Inglaterra/Reino Unido?

3) Quem financia a narrativa?
A matéria destaca influenciadores e “stacking” - mas não detalha se há publicidade velada, links comerciais ou atuação de páginas que vendem. Quais verificações foram feitas para separar testemunho de marketing/afiliados? E quais fontes oficiais independentes contradizem a estimativa de “mercado crescente”?

4) A alternativa ao álcool é terapia ou fuga?
O artigo sugere que o uso pode reforçar a crença de que só se socializa sob efeito de substâncias. Que dados mostram reversão/recuperação quando há apoio psicológico e acompanhamento médico, e não apenas redução do álcool?

Análise retórica

Como o texto constrói sua argumentação?

Imparcialidade: a matéria tenta equilibrar ao citar falas de especialistas e limites (“não totalmente seguros”, “sem supervisão médica”), mas a seleção de exemplos puxa forte para o lado do alarme. “Especialistas afirmam”, “a matéria constrói” e “riscos” aparecem em sequência, enquanto a perspectiva de quem usa aparece filtrada por justificativas individuais (Matt, Mei), sem contrapeso robusto.

Aumento/a­tenuação: há atenuação em frases como “mais seguros do que o álcool, mas não totalmente”, porém o texto cresce em escala com números, mortes e estatísticas (“mais do que quadruplicou”, “2.360 certidões”, “fatal”). O efeito retórico é: menor dúvida, maior impacto.

Eufemismos e intensidade: “drogas sociais sem a ressaca” funciona como aspas para marca de marketing, mas o corpo insiste em “compram ilegalmente”, “mercado negro” e “pensamentos suicidas”. A intensidade é crescente e orientada a repulsa.

Agressividade e metáforas: “cura aparentemente fácil” e a ideia de “coquetéis” reforçam crítica moral. A expressão “alternativas” ao álcool vira “atalhos” narrativos para perda de controle.

Sarcasmo: praticamente ausente; o texto usa mais dramatização do que ironia.

Lógica e ad-hominem: não há ad-hominem direto, mas o texto ataca a lógica dos usuários (“as pessoas pensam que é mais seguro”, “não reconhecem sua própria dependência”). O argumento é mais retórico do que causal: soma-se evidência para concluir “provavelmente aumentará”.

Título vs corpo (clickbait): o título promete “por que preocupa”, e o corpo entrega motivos de risco e dependência. Porém, o gancho “A geração sóbria” é construído como apelido e depois ampliado por “milhões” e “provavelmente aumentará” sem mostrar magnitude equivalente ao longo do texto. A preocupação é clara, mas a conclusão final parece mais previsiva do que demonstrada.

No conjunto, o texto combina linguagem de alerta com estatísticas e depoimentos para “fechar” o leitor na mesma conclusão: a troca do álcool por remédios pode parecer fitness, mas vira uma rota de risco quando entra o mercado informal. A matéria até reconhece nuanças (“pode ser menos prejudicial”), só que prefere o susto crescente: compras ilegais, empilhamento (“stacking”), mortes e dependência. A escolha retórica é menos “entender a tendência” e mais “convencer que a tendência dá problema”, o que dá ao leitor um receituário emocional em vez de uma análise equilibrada.

Fontes e evidências

Em quais fontes e evidências o texto se apoia?

  1. Fontes pessoais (entrevistados) e o que sustentam

    • Matt (nome alterado), 22 anos (norte da Inglaterra): relata uso de medicamentos para ansiedade para “replicar” efeitos do álcool, compra ilegal online e efeitos subjetivos (euforia/menos ansiedade). Segundo o texto.
    • Mei (nome alterado), 20 anos (estudante universitária chinesa): descreve motivação e escalada (“agora não consigo sair de casa sem elas”) e compra via plataforma social. Segundo o texto.
    • Sofia (Ucrânia): diz que começou em festas e depois no trabalho; relata sintomas depressivos e pensamentos suicidas ao ficar sem acesso. Segundo o texto.
    • Michelle Cottam (mãe de Alex Cottam): associa a morte do filho ao aumento/compra ilegal de pregabalina. Segundo o texto.
  2. Instituições, pesquisadores e dados citados (evidências reportadas na matéria)

    • University College London (estudo “publicado no ano passado”): baseia a afirmação de que doenças mentais graves seriam mais comuns em Gen Z do que em millennials (na faixa por volta dos 20) e menciona 28% com altos níveis de ansiedade na Inglaterra. Segundo o texto.
    • University of Teesside (Liam Knowles, pesquisador): embasa a leitura sobre mercado, dependência (“provavelmente… número considerável”) e lógica de “mais seguro” por ser “medicamento”. Segundo o texto.
    • Drinkaware (pesquisa do ano passado): sustenta que 26% dos 18-24 no Reino Unido não consomem álcool (vs. 7% em 2012). Segundo o texto.
    • Nature Communications (artigo): afirma que consumo global de pregabalina “mais do que quadruplicou” entre 2008 e 2018. Segundo o texto.
    • Ofício Nacional de Estatísticas do Reino Unido (ONS): dados de mortes por envenenamento ligado a medicamentos com menção à pregabalina: 2.360 (2020-2024) vs. 768 (2015-2019), na Inglaterra e País de Gales. Segundo o texto.
    • BBC (referência): citado como local de declaração da mãe sobre a morte de Alex Cottam em 2024. Segundo o texto.
    • Governos/órgãos e regulações (Reino Unido e outros países):
      • Reclassificação na Inglaterra (classe C em 2019): sustenta que compra sem receita pode gerar pena de prisão (dois anos; “na prática…” poucas prisões). Segundo o texto.
      • Revisão por consultores independentes de drogas do governo do Reino Unido: mencionada como em andamento para examinar uso indevido. Segundo o texto.
      • China: controle no início de “deste ano”, com restrição de vendas online e limites de fabricação por província. Segundo o texto.
      • Jordânia, Ucrânia e Índia: “pesquisadores observaram aumento” do abuso de pregabalina. Segundo o texto.
    • Imperial College London (David Nutt, professor): sustenta avaliação comparativa de risco (propranolol/pregabalina “mais seguros” que álcool, mas com riscos) e alerta sobre dependência em altas doses e risco ligado à origem não regulamentada. Segundo o texto.
    • King’s College London (Emily Jones, psicóloga): sustenta hipótese de contribuição da pandemia para ansiedade social e alerta sobre reforço da crença de que socialização exige substância. Segundo o texto.
    • Mind Games (Mykyta Lapin, epidemiologista): sustenta argumento de que proibição pode empurrar consumo ao mercado negro e elevar risco por qualidade duvidosa. Segundo o texto.
  3. Outras evidências usadas na construção da narrativa (contexto e alegações verificáveis apenas no próprio relato)

    • Redes sociais/hashtags/vídeos e “stacking”: a matéria afirma que hashtags geram milhares de vídeos com incentivo a “coquetéis” de medicamentos. Segundo o texto.
    • Influenciadores e celebridades (exemplos nominais): Braden Peters (“Clavicular”), Rachel Sennott, Kristen Bell e Khloé Kardashian são citados como divulgadores de betabloqueadores; isso sustenta a ideia de popularização pública. Segundo o texto.
    • “Nossa pesquisa” (sem detalhamento): afirma que influenciadores vendiam medicamentos em sites vinculados às redes sociais; é evidência apresentada sem metodologia no trecho. Segundo o texto.
    • Comparação de custo (18 centavos de libra / R$ 1,20): usada para sustentar argumento de “economia” vs. álcool, atribuída ao Matt. Segundo o texto.
    • Efeitos associados ao álcool e alertas globais: a matéria diz que álcool se associa a “pelo menos sete tipos de câncer” e que a OMS alertou que “qualquer quantidade” seria perigosa, mas não especifica documento/ano no trecho. Segundo o texto.