Perguntaram sobre idosos fascistas; no título, a acusação ganhou bengala e saiu andando para todos os lados
O que: Em sua coluna na Folha, a antropóloga Mirian Goldenberg critica a associação entre velhice e fascismo ou golpismo. Ela sustenta que essa ligação alimenta a velhofobia e que pessoas fascistas existem em diferentes idades.
Por que: Segundo Goldenberg, atribuir radicalismo político às pessoas mais velhas reforça preconceitos e pode torná-las alvos de discriminação. A autora diz que sua crítica parte da convivência e do respeito por amigos idosos, não apenas de sua atuação como pesquisadora.
Quem: Mirian Goldenberg; pessoas idosas que participaram de manifestações e foram votar; e leitores que cobraram da autora textos sobre idosos fascistas e golpistas.
Onde: A autora relata manifestações em Copacabana. O artigo foi publicado na Folha de S.Paulo.
Quando: Goldenberg relembra uma coluna publicada em setembro de 2013 e outra de 25 de janeiro de 2023, após a invasão das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro. Sobre as eleições de 2026, afirma que pessoas idosas foram às manifestações e às urnas.
Quanto: Ao recordar a pandemia de Covid-19, a autora menciona mais de 716 mil brasileiros mortos. Também relata ter visto eleitores com mais de 70, 80, 90 e até 100 anos.
Como: Goldenberg apresenta episódios de sua trajetória, cita uma entrevista à BBC e narra sua participação em manifestações e sua experiência ao ver idosos votando. A partir desses relatos, conclui que pessoas idosas não são invisíveis, descartáveis nem um peso para a sociedade.
Na Folha, Mirian Goldenberg transforma a presença de idosos nas urnas e nas manifestações em resposta ao preconceito que os carimba como fascistas. A cena é comovente. Mas nem toda bengala aponta para a mesma direção política.
A Gazeta do Povo escolheu outra lente: mostrou a mobilização de jovens para convencer parentes idosos a votar em Lula. Ao tratar parte dessas abordagens como “assédio político”, o jornal trocou a celebração da participação pelo alerta sobre a disputa dentro de casa. A urna ganhou até sala de jantar. (wwws.gazetadopovo.com.br)
Já a Reuters ouviu idosos dos dois lados e citou uma pesquisa Quaest que dava a Lula 48% das intenções de voto entre os mais velhos, contra 42% para Flávio Bolsonaro. A Band, por sua vez, noticiou levantamento AtlasIntel que apontava vantagem de Flávio nessa faixa: 53,5% a 46,5%. Foram pesquisas de institutos e momentos diferentes, não contagens de votos. (noticias.uol.com.br)
A coluna da Folha enquadra a eleição como uma vitória simbólica contra a velhofobia. É uma defesa legítima, mas suas cenas de mobilização não provam que os idosos votaram como um bloco. Felizmente, a opinião política não vem impressa na certidão de nascimento.
Mirian Goldenberg sustenta que associar pessoas idosas ao fascismo, ao golpismo ou à extrema direita é uma forma de velhofobia. Para ela, essas posições políticas podem existir em qualquer faixa etária, e não surgem automaticamente com a idade.
A autora compara esse rótulo a estereótipos anteriores que descreviam idosos como teimosos, inúteis ou um peso econômico. O texto afirma que esse tipo de discurso é perigoso e criminoso, mas não detalha a base jurídica dessa classificação.
A coluna usa a experiência pessoal como argumento: Goldenberg relata ter participado de manifestações e visto pessoas de mais de 70 anos, inclusive centenárias, votando e defendendo a democracia. Esses episódios são apresentados pela autora, não verificados de forma independente no texto.
A lembrança de um sonho de 2013, com o lema “Velho é lindo”, reforça a ideia de que envelhecer é uma condição compartilhada: jovens de hoje também serão velhos, se viverem o bastante.
A conclusão convida o leitor a rejeitar julgamentos baseados na idade e a reconhecer a participação dos idosos na vida pública. A intenção da autora é defender essa população contra estigmas e ligar a causa à sua própria trajetória e convivência com pessoas mais velhas.
Fontes presentes: A coluna se apoia sobretudo na experiência e nas lembranças de Mirian Goldenberg, em manifestações que ela diz ter frequentado e em seus próprios textos anteriores. Menciona uma entrevista à BBC, mas não apresenta pesquisa, dados eleitorais nem entrevistas independentes com idosos. (www1.folha.uol.com.br)
Fontes ausentes: Faltam idosos com posições políticas variadas, inclusive os que apoiam a direita, além de pesquisadores de comportamento eleitoral e dados que testem a associação entre idade e radicalização. Isso importa porque a autora denuncia um estereótipo, mas não mostra quem o difundiu nem com que alcance. Em reportagem da Reuters publicada pelo UOL, idosos de diferentes posições políticas foram ouvidos; uma pesquisa citada ali indicava cerca de 40% de preferência por Flávio Bolsonaro entre os mais velhos. (noticias.uol.com.br)
Avaliação do impacto: A seleção favorece uma narrativa de defesa contra o preconceito etário e de participação democrática, mas deixa de fora a diversidade política dos idosos. A própria Folha publicou dados do Datafolha que mostram apoio dividido entre Lula e Flávio Bolsonaro nas faixas mais velhas. Isso não invalida a denúncia de velhofobia; apenas impede que a coluna, sozinha, demonstre a dimensão do problema ou represente todo esse grupo. (www1.folha.uol.com.br)
A coluna afirma que idosos foram às ruas e votaram em defesa da democracia, mas não informa quantos eram, nem apresenta dados eleitorais por faixa etária. Sem isso, relatos pessoais sustentam uma imagem, não uma conclusão sobre o comportamento dos idosos nas eleições.
Também chama de “criminosa” a associação entre velhice e extremismo, sem apontar que crime seria esse ou explicar se usa o termo em sentido jurídico ou moral. E não examina exemplos concretos para distinguir preconceito contra idosos de críticas a pessoas idosas por posições políticas específicas. Essas lacunas deixam o argumento mais amplo do que as evidências apresentadas.
Na coluna da Folha, a autora trata a associação entre velhice e extrema direita como velhofobia e chega a qualificá-la de “criminosa”, mas não apresenta base jurídica para esse termo. A palavra aumenta a temperatura do argumento: criticar uma generalização pode ser pertinente, mas chamar o discurso de criminoso sem explicar em que sentido deixa a acusação mais forte que a demonstração.
O texto também troca a análise de posições políticas por uma defesa afetiva: a autora ressalta que ama e admira amigos idosos. É um testemunho pessoal, não uma resposta lógica à pergunta sobre idosos fascistas ou golpistas. A frase “fascistas e golpistas existem em todas as idades” rebate a associação automática, mas não examina por que ela teria sido feita.
O título provoca, e o subtítulo amplia o tom ao dizer que “nessas eleições” os idosos provaram seu valor. O corpo, porém, oferece lembranças, um sonho e relatos de manifestações e votos, não dados que sustentem uma conclusão sobre os idosos como grupo. Não é bem um clickbait: é uma coluna assumidamente pessoal, embora o título prometa uma resposta mais direta do que entrega.
Fontes citadas
Evidências apresentadas