Misoginia existe; o exagero foi vender Telegram como “a internet inteira”
O que: Levantamento da UFBA aponta que a misoginia online tem se disseminado principalmente por memes, montagens e piadas, sem necessariamente envolver pornografia.
O estudo identificou conteúdo misógino em 2.896 imagens, o equivalente a 6,2% do material analisado.
Por que: Segundo o cientista social computacional Leonardo Nascimento (UFBA), o humor funciona como estratégia para “mascarar a violência como brincadeira”, ampliando o alcance.
O artigo também sustenta que a desumanização de mulheres normaliza a violência de gênero ao tornar essa hostilidade “socialmente aceitável”, na leitura da jurista Alice Bianchini (ABMCJ).
Quem: Leonardo Nascimento é citado como coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA.
Alice Bianchini aparece como presidente da ABMCJ e integrante do Consórcio Lei Maria da Penha.
Telegram e YouTube são mencionados como espaços onde o conteúdo circula, mas não responderam quando foram procurados, segundo a reportagem.
Onde: O levantamento analisou imagens que circularam em 1.417 grupos e canais do Telegram.
A matéria diz que os links compartilhados direcionavam principalmente para o YouTube (44%), além de Instagram (16%) e X (14%), entre outros destinos.
Quando: O recorte do estudo vai de novembro de 2020 a maio de 2026.
A reportagem afirma que quase metade dos posts de imagem foi publicada em 2025 e 23,5% no primeiro semestre de 2026.
O texto aponta que 70,5% de todo o conteúdo analisado se concentra nos últimos dois anos.
Quanto: Foram analisadas 47.018 imagens.
A reportagem também informa que 65,2% das imagens classificadas como misóginas foram de intensidade alta ou extrema.
Entre as categorias de risco, a misoginia foi a mais frequente (6,2%), superando violência (3%), nudez (2,1%) e conteúdo sexual explícito (1,2%).
O universo mencionado é de aproximadamente 3,9 milhões de mensagens publicadas.
Como: A matéria descreve que, em mais de 90% das imagens classificadas como misóginas, não havia conteúdo sexual explícito, com o discurso ocorrendo por termos, códigos e montagem.
Entre os exemplos citados estão xingamentos como “muié” e “vadia”, além de referências a códigos da machosfera (como “msol”, “beta”, “ginocentrismo” e “ginofascismo”).
O artigo também relata que os pesquisadores identificaram aumento de conteúdos produzidos com inteligência artificial e “capturas de tela” de mulheres reais divulgadas sem conhecimento delas, muitas vezes por ex-companheiros ou conhecidos, para ridicularização.
Glossário: Machosfera (no texto analisado): termo usado para se referir a grupos e narrativas associados a uma cultura masculinista e antifeminista, com códigos e influenciadores citados na matéria.
Enquanto a Folha trata os memes misóginos como “guerra visual” devidamente medida (47.018 imagens, Telegram como distribuidor e humor como máscara de violência), outros veículos mudam o roteiro. A CNN Brasil prefere explicar a “machosfera” como ecossistema de grupos (Red Pill, incel, MGTOW) e mira no conteúdo que incita agressão - com Polícia Federal na cena. (cnnbrasil.com.br)
Já o UOL também fala do Telegram como “dobradiça”, mas puxa a atenção para o efeito prático: radicalização, efeito em denúncias e conexão com campanhas públicas. (tab.uol.com.br)
Quando o assunto vai para o PL da Misoginia, a Gazeta do Povo muda o tom: vira “alerta” sobre risco à liberdade de expressão e redação “vaga”. (gazetadopovo.com.br) Enquanto isso, Agência Brasil e Agência Lupa focam no outro lado do absurdo: a desinformação e o medo usados para atacar o projeto. (agenciabrasil.ebc.com.br)
Conclusão (framing): a Folha escolhe o enquadramento “científico do horror”: transforma piada em dado, dado em crueldade e crueldade em responsabilidade. (agenciabrasil.ebc.com.br)
O texto conclui que a misoginia online não depende de conteúdo sexual explícito: em mais de 90% das imagens classificadas como misóginas pela UFBA, o material aparece via memes, montagens e “piadas”.
O levantamento citado analisou 47.018 imagens e identificou 2.896 como misóginas (6,2% do total), com 65,2% delas em intensidade alta ou extrema.
A matéria sustenta que o “humor” funciona como máscara: segundo o cientista social Leonardo Nascimento, trata-se de uma estratégia para transformar violência e desprezo em algo “brincável” - e, portanto, mais espalhável.
O texto mostra que as mensagens atacam palavras e ideias específicas: mulheres são ridicularizadas por termos como “muié”, “vadia” e “vagabunda”, além de aparecerem códigos da machosfera (como “beta”, “ginocentrismo” e “ginofascismo”). Em parte do conteúdo, há incentivo à violência física.
A matéria destaca a rota da circulação: o estudo acompanha postagens em grupos e canais do Telegram (1.417 espaços), com links que levam principalmente ao YouTube (44%) e ao Instagram (16%), entre outros.
O texto indica mudanças no formato: há aumento de imagens feitas com IA e “capturas de tela” de mulheres reais, muitas vezes divulgadas sem consentimento, para ridicularização em grupos.
A conclusão mais comportamental do artigo é que a exposição contínua (incluindo jovens e crianças, segundo a jurista Alice Bianchini) ajuda a normalizar a violência de gênero, porque “desumaniza” e torna o abuso socialmente aceitável.
Por fim, o texto sugere intenção e recado: mapear essa linguagem “disfarçada” para reduzir a identificação e responsabilização lentas das plataformas - e, em tom de alerta, deixar claro que piada não isenta responsabilidade.
Fontes presentes: Segundo o texto, a narrativa se apoia em duas vozes principais: Leonardo Nascimento (cientista social computacional/UFBA) e Alice Bianchini (presidente da ABMCJ e integrante do Consórcio Lei Maria da Penha). O artigo também cita o “levantamento” da UFBA e diz que Telegram e YouTube foram procurados, sem resposta.
Fontes ausentes: Não há falas de políticas públicas (ex.: Ministério das Mulheres) nem de entidades de monitoramento/denúncia (como a Safernet), que costumam dar contexto sobre volume de ocorrências e fluxos de responsabilização. Também não entram perspectivas de pesquisa jurídica e regulatória voltadas a soluções (ex.: InternetLab, que discute moderação e marcos legais). Ficam de fora, ainda, qualquer voz de mulheres afetadas (vítimas de exposição não consentida) e representantes das plataformas para explicar critérios de moderação. Por fim, não aparece quem conteste a abordagem “radicalização/machosfera” ou discuta limites e riscos de enquadramento do “ódio” como categoria.
Avaliação do impacto: Ao selecionar quase só academia e jurista, com silêncio das plataformas, a matéria tende a produzir uma explicação “fechada”: misoginia como máquina de espalhar violência via humor, sem mostrar como mediação, moderação e reparação funcionam (ou falham). Isso pode empurrar o leitor para uma conclusão mais punitiva e menos operacional, sem o contrapeso institucional que poderia complexificar a responsabilização.
O que os ignorados disseram em outros meios: Em cobertura do UOL/TAB sobre a misoginia online (com base em estudos da UFBA), foram ouvidas a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, e citadas denúncias à Safernet (28,6 mil em 2022). (tab.uol.com.br) O mesmo material também contextualiza que havia parceria com InternetLab e descreve o papel de campanhas públicas para enfrentar o problema. (tab.uol.com.br)
O dado “2.896 imagens (6,2%)” sustenta o tamanho do fenômeno? Segundo a matéria, a análise foi de 47.018 imagens e “prints” de grupos do Telegram; não informa critérios de amostragem, taxa de repetição e possíveis vieses do que foi coletado.
“Memes” são causalmente conectados à violência? O texto afirma que, “em alguns casos”, há incentivo à violência e que o humor mascara, mas não detalha exemplos, nem mede impacto (o que seria necessário para ir além de correlação).
Como checar autoria e responsabilidade quando há “capturas” de imagens? A matéria sugere que ex-companheiros/known captura “sem conhecimento delas”, mas não explica como foi identificado o fluxo, o tempo e quem responde por reenvios/monetização.
O Telegram, YouTube e Instagram aparecem como “centros” por onde? O artigo traz percentuais de links (ex.: 44% YouTube), mas não compara com volume total por plataforma-faltaria um denominador.
A aceleração “70,5% nos últimos dois anos” coincide com eleições? O texto diz que ainda não dá para “relacionar diretamente”, mas afirma tendência geral; vale pedir evidência comparativa por período e controlar outros fatores.
O artigo assume um ar de relato técnico, mas faz escolhas retóricas que empurram o leitor na direção do impacto. Segundo o texto, a pesquisa da UFBA aponta que “não havia conteúdo sexual explícito” em mais de 90% das imagens, e essa ênfase funciona como atenuação do estereótipo “é só pornografia”, reorientando o foco para ódio e humilhação. Ao mesmo tempo, o título com “mensagens misóginas” e o corpo detalhando xingamentos, “intensidade alta ou extrema” (65,2%) e “incentivar violência física” criam aumento dramático, reforçado por linguagem de peso como “cruéis” e “discurso de ódio”.
A matéria recorre a metáforas discretas, como “centro de distribuição” para redes, e usa argumentos de autoridade sem muita fricção: cientista social e jurista compõem a cadeia causal. Não há ad hominem direto contra pessoas específicas, mas há um enquadramento moral forte contra “grupos radicalizados” e “cultura de ataque”, o que pode soar mais condenatório do que observacional. O sarcasmo não aparece como figura; ainda assim, a ironia é estrutural: o humor é descrito como “mascarar a violência como brincadeira”, e isso convida o leitor a ver o “meme” como disfarce covarde.
Há pequena discrepância entre título e corpo no ritmo: o título promete “dissemina(ção) na internet” e “levantamento”, mas boa parte do texto vira explicação de categorias, rotas por plataforma e contextos (Telegram, YouTube, Instagram, X). Isso é menos clickbait e mais encaixe publicitário do que incoerência. No conjunto, a imparcialidade é construída por dados e citações, mas o vocabulário (“cruéis”, “hostilidade”, “negar humanidade”) deixa claro o propósito: não apenas informar, e sim enquadrar o humor misógino como violência em roupa de festa.