O progresso chegou: data centers sem licença ambiental rigorosa, apagões e conta de luz cara em Gentio do Ouro
O que: A Serena, empresa de energia renovável, planeja instalar e conectar até 12 data centers em Gentio do Ouro, no norte da Bahia. Um já está em operação e dois foram autorizados.
Por que: Segundo a reportagem, a empresa pretende aproveitar o excedente de energia eólica da região. Os data centers também ajudariam a reduzir perdas causadas pelo excesso de geração, mas podem aumentar a demanda por energia, água e novas estruturas de geração.
Quem: A Serena lidera o projeto, com autorizações e análises envolvendo o Ministério de Minas e Energia, o Operador Nacional do Sistema e o Inema. Moradores, lideranças quilombolas e pesquisadores questionam os impactos da expansão.
Onde: Os projetos estão previstos para Gentio do Ouro, nos arredores da Chapada Diamantina. Parte deles fica no Complexo Eólico Assuruá, próximo à área de proteção da Lagoa de Itaparica e à Comunidade Remanescente de Quilombo do Pacheco.
Quando: O primeiro data center foi instalado entre julho de 2023 e julho de 2024. O decreto baiano que regulamenta o licenciamento de data centers foi aprovado em fevereiro de 2026.
Quanto: Os 12 projetos podem alcançar 270 MW de capacidade instalada. Dois novos data centers ocupariam cerca de 5 hectares cada, em áreas de Caatinga.
O curtailment, ou excesso de energia que precisa ser desligada para evitar desequilíbrios na rede, teria causado perdas de R$ 3,2 bilhões ao setor energético no primeiro semestre de 2025.
A expansão eólica associada ao Complexo Assuruá VI prevê pelo menos 91 novas torres. O complexo ocuparia 8 quilômetros quadrados.
Como: A Serena pretende instalar data centers compactos, montados em contêineres e voltados ao processamento de dados. A empresa solicitou ao MME autorização para pelo menos nove unidades adicionais, mas não concluiu o processo dentro do prazo informado pelo ONS.
Segundo a reportagem, os projetos já autorizados não passaram por licenciamento ambiental completo. O Inema concedeu cartas de inexigibilidade porque ainda não havia regulamentação específica para data centers quando os pedidos foram apresentados.
A empresa tentou obter autorização da comunidade quilombola do Pacheco para atravessar o território com o Complexo Assuruá VI. Após cinco meses de negociações, os moradores rejeitaram o contrato.
Glossário: Data center é uma instalação que reúne computadores e sistemas para armazenar e processar dados. Curtailment é a redução ou interrupção obrigatória da geração de energia quando há excesso de oferta ou risco de desequilíbrio na rede.
Enquanto o Intercept Brasil pinta Gentio do Ouro como “quintal de data centers”, outros veículos tratam o mesmo fenômeno como engenharia inevitável: a CNN celebra autorizações do ONS e fala em “estabilização da rede” e empregos no interior - porque, aparentemente, quando o município sofre, é só “ajustar o sistema”. Já a MegaWhat descreve o data center quase como bateria: quando há curtailment, a conta é “comida” pelo processamento, em vez de virar prejuízo para as geradoras. (cnnbrasil.com.br)
Do outro lado, quem não quer lavar a alma em propaganda corporativa (tipo o Idec) cobra transparência e salvaguardas. E o Estado entra com a caneta: o ONS diz que curtailment é medida técnica e estrutural, não um capricho; a EPE e o MDIC vendem o REDATA como incentivo com condicionantes, incluindo critérios de sustentabilidade (energia e água) e necessidade de transmissão. (ons.org.br)
Conclusão: O Intercept escolhe um framing de acusação moral e territorial: transforma um problema de rede/planejamento em um enredo de “favorecidos versus vizinhos”, com foco em lacunas e impactos locais. Os demais privilegiam a lógica sistêmica e a viabilidade regulatória - menos drama, mais planilha.
A matéria contrasta promessa e realidade em Gentio do Ouro (BA). Segundo o texto, o município tem muitos empreendimentos eólicos há anos, mas isso não viraria “polo sustentável” para a população - e agora ganha um novo alvo: data centers.
O argumento central é que a expansão atende demanda de fora, não resolve carências locais. A reportagem sustenta que data centers “consomem muita energia” e podem usar o excedente para reduzir perdas do setor, mas sem garantir melhora proporcional para moradores.
Há indícios de que benefícios energéticos não chegam na ponta. Segundo o texto, moradores relatam falta de luz e aumento de custo na conta (como o caso citado de pagamento de R$ 400), enquanto a energia produzida, em parte, segue para atender outros centros de consumo.
O texto aponta risco de “ciclo vicioso” energético. A reportagem afirma que a chegada de data centers pode incentivar mais geração (novas eólicas), o que puxaria mais pedidos - com efeito cumulativo sobre território e comunidades.
Também entra o tema de licenciamento ambiental - com críticas à régua aplicada. Segundo o texto, projetos teriam sido autorizados com uso de inexigibilidade e “fracionamento”, escapando de análise de impacto que seria mais rigorosa.
Terra, patrimônio e conflitos aparecem como preço do “progresso”. A matéria descreve impactos sobre sítios arqueológicos, ruído, explosões e efeitos sobre roças, além de negociações com comunidade quilombola que não aceitou o contrato proposto.
A conclusão implícita: o desenvolvimento é apresentado como troca de mercado, mas a conta social fica com quem mora perto. A intenção do autor, pelo enquadramento, parece ser pressionar por mais escrutínio público e por políticas que não tratem território como “moeda de troca”.
Fontes presentes: A reportagem ouviu moradores e lideranças locais (como Damares Teixeira e Elexandra Torres Peixoto, do quilombo do Pacheco) e quem acompanha impactos socioambientais (CPT-Bahia e Inesc). Também recorreu a autoridades e documentos: Inema (incluindo falas de servidores) e MMA em nota, além de citar pareceres/posicionamentos operacionais do ONS (e respostas da Engie). Como contexto político-econômico, incluiu ainda um gestor estadual (Bahiainvest, via A Tarde) e uma vereadora municipal (Claudia Oliveira).
Fontes ausentes: Falta a voz técnica e regulatória do “lado do sistema elétrico” que poderia detalhar custos e riscos: ANEEL e concessionária/distribuidoras (ex.: tarifas, repasses e efeitos diretos na conta). Também não há falas de órgãos de controle/defesa coletiva (Ministério Público, defensorias, comitês de bacia com participação operacional no caso). Do lado empresarial, a Serena não respondeu perguntas; e a prefeitura também não respondeu.
Avaliação do impacto: Com pouca “contraparte” institucional e sem explicações pró-data center debatidas com a mesma densidade, a narrativa tende a pender para o enquadramento de ameaça socioambiental e excedente virando álibi. Em outros veículos, porém, a defesa costuma ser que data centers ajudam a “absorver” curtailment e usar excedente renovável, reduzindo desperdício (ex.: Exame e CNN Brasil (exame.com); casos do setor como a Renova, em Brasil Energia (brasilenergia.com.br)).
Baseado no material publicado pelo Intercept Brasil, algumas informações que, se estivessem claras, mudariam a leitura:
1) O que é fato verificável e o que é interpretação?
Segundo a matéria, há dados (ex.: “12 pedidos”, “28 empreendimentos ativos”, valores do curtailment e números de municípios). O leitor deve checar se cada número tem fonte, metodologia e recorte-ou se virou “verdade” por repetição.
2) Qual é o “custo” e qual é o “benefício” para quem?
A matéria sustenta que data centers aumentam impactos e não melhoram a vida local (falta de luz, conta cara). Pergunta faltante: qual é a contrapartida formal (emprego, obras, compensações) e para onde vai o dinheiro (município, comunidade, energia)?
3) Existem alternativas ou explicações concorrentes?
A reportagem sugere um ciclo: mais energia → mais data centers → mais eólicas. Vale perguntar: o problema é energia, planejamento da rede, ou falhas regulatórias/licenciamento? Também faltam respostas da outra ponta (ONS/empresas/gestão local) para comparar cenários.
Imparcialidade: a matéria se apoia em falas críticas (moradores, CPT, advogada, Inesc) e em “documentos aos quais o Intercept teve acesso”, mas a composição é desequilibrada. Segundo o texto, há pouco espaço para resposta direta da Serena; quando ela aparece, vem principalmente para justificar intenção e estratégia.
Aumento/atenuação eufemística: o artigo suaviza riscos usando enquadramentos tipo “à primeira vista pode parecer positivo”, enquanto reforça a gravidade com rótulos como “quintal de data centers” e “correia” de empresas. O texto também troca “desdobramentos” por efeitos amplificados: “causar uma nova gama de impactos ambientais”.
Metáforas e agressividade: “vizinhos do vento”, “pagando o preço do ‘progresso’” e “chegando sem pedir licença” transformam análise em julgamento. Há confronto com termos como “vorazes” e “pegadinha”, além de generalizações (“tudo o que é feito na internet”). Há sarcasmo no tom em expressões como “A tecnologia é boa… mas muitas vezes ela prejudica também”, dito para abrir brecha e puxar o leitor para o veredito.
Lógica e ad-hominem: o texto faz encadeamentos causais (“data centers estimulando novos geradores”) mais por sugestão do que por prova direta, embora mencione contexto regulatório. Os trechos sobre empresas “as mesmas empresas” e “nem precisava ir muito longe” funcionam como atalho argumentativo, com crítica antecipada a um grupo.
Discrepância título x corpo (possível clickbait): o título promete “transformar” uma cidade em quintal; o corpo comprova data center já instalado e outros autorizados, mas a “transformação” é um salto retórico. Segundo a matéria, trata-se de intenção/autorizações e licenciamento contestado, não de um fato consumado total. Ainda assim, o slogan do título vira tese antes das evidências terminarem a página.
Fontes primárias e documentos citados como evidência (identificáveis no texto)
Fontes institucionais e veículos (falas diretas com atribuição)
Evidências quantitativas e afirmações verificáveis no texto (com “de onde veio”)